Wild Dagga – A Cannabis Selvagem

 Em Artigos Enteógenos, Dicas de Cultivo

Por Catiusia Gabriel

Junho/2013

wilddaggaConhecemos muito pouco sobre a diversidade de plantas usadas medicinalmente, e também em rituais religiosos, pelos povos do continente africano. Duas das plantas nativas da África sobre as quais temos mais estudos etnobotânicos atualmente são a kanna (Sceletium tortuosum) e wild dagga, ou cauda-de-leão (Leonotis leonorus). O nome latino Leonotis leonorusfaz menção à cor e formato das flores da wild dagga, sendo de cor laranja intenso e com formato alongado. Ambas as plantas produzem alcalóides com algum tipo de ação psicoativa em seres humanos. Essas plantas desempenharam um papel importante durante as migrações de tribos africanas, e hoje ainda são usadas pelas tribos com objetivos religiosos ou medicinais. Além disso, a wild dagga possui uma estreita relação com o uso da cannabis por essas populações indígenas africanas.

Remonta aos anos de 1650 a 1680 os primeiros relatos de viajantes europeus sobre o uso recreativo ou religioso de plantas por populações africanas. Jan van Riebeeck, um alemão que visitou o Cabo da Boa Esperança em 1668, escreveu em seus relatos de viagem sobre o uso de uma planta pelos índios africanos da tribo dos Hotentotes. A planta era a wild dagga, que como escrito por Riebeeck, era macerada pelos índios e ingerida, deixando-os embriagados. Outros autores trazem informações adicionais sobre o uso da dagga, evidenciando que os Hotentotes também fumavam extratos da planta. Outra espécie documentada por Riebeeck, em suas viagens pela África do Sul, foi a kanna, que como a própria etimologia do nome sugere (Kanna também era chamada de Kougoed, que significa “algo para mastigar, mascar”), era mascada pelos viajantes e migrantes que cruzavam grandes distâncias na África, principalmente por ser capaz de inibir o apetite e, em doses mais elevadas, causar um estado eufórico, garantindo disposição física para a caminhada.

As tribos africanas do grupo dos Khoisan foram quem descobriram e espalharam o uso de kanna e dagga. O grupo dos Khoisan é, na verdade, o agrupamento antropológico de duas tribos que compartilhavam culturas semelhantes, os Khoekhoe e os Bushman. Essas tribos são consideradas os grandes protetores do meio ambiente, pois acreditavam que seriam punidos pelas divindades, caso fizessem uso inadequado dos recursos ambientais que os deuses haviam entregado a eles. Para os Bushman, as plantas eram sagradas pois proporcionavam o encontro com os deuses e eram o alimento e a cura para suas doenças.  

dagga secas

Essas tribos habitaram desde os territórios centrais desertificados até a costa a leste do continente africano, onde, provavelmente, tiveram contato com a cannabis. Existem na África três diferentes nomenclaturas historicamente associadas à cannabis, cada uma estando ligada a uma diferente região geográfica do continente. Essa diferença de nomenclatura foi devida à grande expansão da cannabis no continente africano 

onde a planta passou a ser usada por muitas tribos diferentes, que a denominaram de acordo com seus costumes. Na parte central e costa leste a cannabis era referida como bangi, nas áreas a oeste era denominada djambae nas regiões mais ao sul era chamada dagga. Aí está a evidência da associação de uso entre a cannabis e a Leonotis leonorus, ou a wild dagga, que, traduzindo seria a dagga selvagem, ou a cannabis selvagem.

Os efeitos da cannabis e wild dagga são muito parecidos, um leve estado eufórico seguido por um relaxamento, embora os efeitos de wild dagga sejam um tanto menos intensos que os de cannabis. Apesar de não serem aparentadas botanicamente, as duas plantas são semelhantes também na forma de crescimento, e principalmente na aparência das flores secas, sendo que a wild dagga é atualmente muito conhecida como legal buds e vendida como tal. É interessante notar que a cannabis tornou-se tão conhecida e utilizada dentre as populações tribais africanas que a wild dagga acabou levando seu nome, e tornou-se conhecida, literalmente, como “cannabis selvagem”, mesmo sendo uma planta nativa daquele continente. Não há dúvidas que a cannabis tem e teve uma influência muito grande na formação cultural em diversos locais pelo mundo afora.


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